Não quero nada não, tô só dando uma olhadinha…

Agosto 13, 2008

Should I Stay or Should I go?

Arquivado em: The job — Tags:, — Caroline @ 3:40 pm

Então… Eu ainda não decidi. O programa pode ser extendido por mais um ano se eu quiser, mas não, parece que um ano a mais dá uma sensação de tempo perdido. Um ano acho que é mais do que bom, pela experiência de morar longe, em outro país, tendo que me virar sozinha com menos de um salário mínimo e cuidando de crianças mimadas.

O negócio é que tudo depende das contingências. A família é uma delas, e mais importante. Assim, se a cidade em que você está for uma merda, as pessoas idem mas a família for super legal e cuidar das crianças está sendo uma prazer pra ti, não importa, você fica. Se você está numa cidade massa pra caralho e a família é complicada demais (meu caso), ou ruim com você, nada vale a pena.

A minha família é legal, na primeira semana já eu senti a possibilidade grande de um divórcio, 5 meses depois, minhas expectativas se confirmam. O problema é que você fica no meio, o pai é altamente folgado e sem rumo, vive da pena dos outros e é estranhamente bipolar. Desde que eu cheguei, ele se encostava na minha porta e literalmente fazia terapia comigo, contava a vida inteira dele todinha, até coisas que eu não quero ou preciso saber. As coisas ficaram cada vez piores, até que, depois de uma viagem romântica em que eles tentaram resolver as diferenças, ele foi demitido e isso foi a gota d’ agua. No dia seguinte ela disse que queria o divórcio.3 semanas depois ele estava saindo de casa.

Nessas três semanas, no entanto, ele me deixou louca. Ele ficava em casa o dia todo, fazia comentários sobre como eles deveriam rever minhas horas porque eu não parecia estar trabalhando o suficiente.Em três semanas, ele não conseguiu montar o currículo dele sozinha, fazia corpo mole dizendo que não sabia mandar e-mails ou colocar anexos,. levou quase um dia pra montar uma conta no gmail… e depois ele pegava o carro e sumia. Voltava tarde da noite porque tinha ido assistir um musical na cidade, um filme no cinema… Mas, sempre que possível, ele me pedia favores, como fazer baby sitting sem ele precisar me pagar, porque ele nao tinha dinheiro. E ele fazia o maior teatro, com choro e tudo, alegando que tudo andava muito difícil pra ele e, ainda assim, ele conseguiu juntar forças pra ir assistir ao jogo de tenis da Serena Williams.

Um belo dia eu me irritei e conversei com a mãe, dizendo pra ela que eu não queria que ela comentasse com ele, já que ele estava se mudando, que eu só estava deixando ela saber como as coisas estavam andando e eu estava descontente. Mas ela contou, e ele obviamente veio tirar satisfação. Daí em diante eu comecei a ficar azeda. Claro que, com a saída dele eu ganhei mais autonomia e mais responsabilidade com as criancas, mas ao mesmo tempo…

É complicado quando te colocam numa situação que você não tem muita saida, digo… Eu to aqui, e eu acho no mínimo justo honrar meu contrato. E, quanto a mudar de família, eu prefiro o duvidoso ao incerto, pode ser bem pior.

A família em si não é ruim, a dinâmica familiar é. As crianças têm 9 e 6, morrem de medo, pânico quase, de formigas, borboletas e mosquitos. A mais velha pensa que tem 19, se mete na vida de todo mundo, pergunta tudo de tudo como se fosse da conta dela e a mãe reforça esse comportamento. Ela manda no irmão e trata todo mundo como se fosse empregado dela.

O pai é um banana, ele é mais do que precavido e sempre pensa na PIOR situação possível pra qualquer coisa, tudo é catástrofe, ele se preocupa com as pequenas coisas, o tempo todo. Você não pode deixar absolutamente NADA pra amanhã, porque ele tá atrás de você fazendo. Ele evita fazer as coisas que realmente importam, mas que são mais serviço pesado e faz outras coisas, pra ele estar ocupado e não precisar fazer nada mais. Tudo é intenso e importantíssimo pra ele “Não posso lidar com isso agora, to montando minha conta do google.”  Reclama que tem saudade dos filhos, que não vai saber viver sem eles mas, sempre que ele inventa planos, desmarca em cima da hora, eu fico puta porque aí eu to sempre a mercê dele, eu não posso ter planos pra mim porque eu dependo da mudança de humor dele, quando tem a ver com as crianças. E como ninguém tem respeito por ele, é mais aqueles casos em que a pessoa te vence no cansaço, a única pessoa em que ele pode mandar é a au pair, logo.. sobra pra mim.. eu não consigo contar quantas vezes ele me fez de faxineira, pedindo um favor ou dizendo “minha esposa está sob muita pressão, o nosso objetivo é deixa-la feliz ok? Então eu preciso que você deixe os banheiros brilhando” e se eu dissesse que não era meu trabalho, ele dizia “Poxa Caroline, é tão difícil assim eu te pedir um favor (com uma cara que te faz sentir a pior pessoa do mundo)? Poxa, você tem o melhor quarto, o melhor banheiro da casa.. o que custa fazer uma coisa? (uma coisa agora, outra depois…)

A mãe tem altos e baixos, mas deve ser a mais normal. O problema dos altos e baixos é que eles são totalmente imprevisíveis. Uma dia, por causa de uma falta de comunicação entre eu e o marido, que simplesmente presumiu que eu ia passar o final de semana em casa – mas fui pra outra cidade – ela ligou enquanto eu já estava no trem, dizendo que a minha programação pessoal não pode afetar meu trabalho de forma alguma e que eu não posso simplesmente colocar minhas vontades em primeiro lugar e largar as crianças e que as crianças precisam ser alimentadas 5x por semana. Eu me senti um lixo. Tudo aconteceu porque eu não queria perder um trem, e eu chequei se as crianças estavam bem e prontas, e criança tem fome o tempo todo, mesmo depois de terem comido, elas disseram que estavam com fome. Na segunda feira, quando eu voltei, ela decidiu fazer uma vontade mimada da menina realidade, fez eu organizar o closet dela (que é mais ou menos do tamanho de uma lavaçao de apartamento) por cor. Ou sempre que eu peço alguma coisa pessoal ou comento sobre as crianças ela responde, “ah sabe, eu estou sob muita pressão, não posso lidar com isso agora.” então, basicamente, a maior parte da educação das crianças eu dou conta sozinha, com o que eu acho melhor.
Por outro lado, ela se faz bastante ativa, liga do trabalho, traz presentes, passa os finais de semana com as crianças, conversa com elas muitas vezes, depois do trabalho…

Quanto casal eu particularmente ficava chateada… eles brigavam alto até altas horas da noite, ele mesmo fazia barulho, batia portas, berrava…De manhã então.. acordava cedo e já começava a bater portas e fechar/abrir geladeira.. sem consideração alguma com todo mundo que ainda estava dormindo.

E o menino, como ele é o menor, acho que me apeguei mais… e eu realmente me sinto responsável e fico tentando evitar o máximo a má influência, mas a verdade é que com os anos ele vai me esquecer e vai ficar como os pais, como todo mundo faz. Ele é meio medroso e ainda toma banho de banheira e é altamente manhoso, aprendeu com o pai dele que, sempre que você pega mais pesado, você está magoando os sentimentos dele (me irrita profundamente essa frasezinha)…

Acho que depois de um tempo você se apega, e acha que pode fazer uma diferença, quem sabe né? E, por essa situação em especial, é que mesmo com esses problemas todos, eu não trocaria de família. Eu acho injusto com as crianças, passando por uma barra com divórcio e tudo mais, agora que eles provavelmente mais precisam de mim eu vou dar pra trás?

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