Eu podia abrir esse post com as citações da Wikipedia e ir on and on com coisas que todo mundo já sabe ou, se não sabe, pode procurar no google. Ao invés disso, vou falar da minha experiência. Meu primeiro CD de rock foi o Jagged Little Pill. Eu tinha 12 anos e, pra variar, estava entrando naquela fase altamente difícil da adolescência, que as pessoas só r

econhecem e se identificam depois de algum tempo… colocam a culpa da mudança de humor nos hormônios, que nem com mulher grávida ou como na TPM… Eu lembro que, na época, Blumenau ainda tinha a Rede Transamérica e a primeira vez que eu ouvi “You Oughta Know”, eu não entendi super do que se tratava, mas eu simplesmente amei, eu fiquei pensando “Meu Deus.. que pessoa mais puta da cara!” Dava pra sentir raiva emanando da voz dela, vibrando as caixinhas de som do meu rádio “Somy” (minha mãe ainda trabalhava com importação – paraguai.)Esse cd foi o primeiro “de verdade”… Antes disso, minha coleção era o CD internacional da novela “Pátria Minha” e a trilha sonora do “Rei Leão”.
Por causa desse CD eu comecei a curtir mais as aulas de inglês e lógico, quase precisei duma segunda cópia. Depois que a caixinha quebrou, eu levava o disco dentro do bolso da japona da escola, pra tocar no discman na hora do recreio. Meses de prática até eu conseguir cantar “Not The Doctor” e “All I Really Want”. Devagarinho eu descobri que algumas meninas mais velhas na escola gostavam dela. Era fácil saber quem eram, cabelos compridos atá a cintura, calça jeans escura e camiseta meio larga. Tinha uma menina que sabia tocar violão e ainda hoje procura trabalhar com música, naquele tempo ela fazia apresentaçõezinhas na escola sempre que possível e eu amava ouvir ela tocar. Daí em diante começaram minhas primeiras tentativas no violão. Vira e mexe fico pensando em voltar. Ainda acho que eu devia…
Toda vez que eu sofria uma desilusãozinha amorosa (e foram muitas), eu recorria ao CD da Alanis.. Só ela me entendia, só com ela eu podia ficar puta e pular de ódio enquanto eu apavorava na minha guitarra aérea. Eu ouvia “Perfect” e pensava no cara que esnobou… ou pensava nos meus problemas com meus pais…Ouvia “Head Over Feet” e, mesmo não sabedo que era uma expressão pra alguém que está apaixonado, eu meio que sentia o que era e pensava no carinha que eu gostava. Eu odiava “Mary Jane“ e eu achava que “All I really want” me descrevia tão bem que eu quase me sentia como se ela tivesse roubado a letra de mim (a louca). Achei que eu tinha descoberto a América quando ouvi “You Learn” e quando tudo dava errado, eu ouvia “Hand in My Pocket” e eu lembrava como eu gostava de passar tempo sozinha, me sentia como se eu tivesse num filme sobre mim, com trilha sonora (se achando), porque a Alanis tava me dizendo que estava dura, mas estava feliz. Que ela era baixinha, mas saudável e que ela estava perdida,mas tinha esperança e que, no fim tava tudo bem porque ela tava com uma mão no bolso e a outra tava fazendo um high five. E ainda hoje “Ironic“ me faz parar pra pensar e ligar menos pras coisas que não saem como a gente esperava. Acho genial quando ela diz: “Well life has a funny way of sneaking up on you when you think everything’s okay and everything’s going right. And life has a funny way of helping you out when you think everything’s gone wrong and everything blows up in your face…”
Eu lembro de andar pra cima e pra baixo na praia, ouvindo “Forgiven” e eu nunca entendi a letra.. acho que nem procurei aprender também, até porque mais tarde.. quando eu li a letra e vi que tinha tudo a ver com você ir pra igreja e não se encontrar la dentro e se sentir forçado a acreditar em coisas que você simplesmente não consegue.. era um daqueles casos que a musica em si não significava nada, mas me fazia sentir algo. Já “Right Through You” era outro caso, eu andava na praia e fazia um lipsync da música e bateria aérea e tudo mais… e era tudo sobre um cara chamado Samuel que, agora lembrando assim ele era um exú tadinho… mas eu tinha uma paixonite assim insuperável. Acho que ele casou com a namorada daquela época ainda…
Enfim… foi um dos poucos discos que eu ouvia tudo, até o fim e gostava praticamente de todas as músicas. O dia que eu descobri “You House“, aquela faixa acapella escondida no final do CD… nossa, foi a glória. Até hoje eu escuto e fico meio arrepiada. Acho incrível o talento que ela tem pra transformar em letra aquelas coisas que acontecem com todo mundo mas a gente não sabe explicar tão bem ou tão diretamente. Eu nunca entrei na casa de um ex namorado e tomei banho na casa dele, dei uma olhada nos cds ou comi na cama sem ele estar lá, a parte boa dessa música, pra mim, é que me fazia sentir como se eu tivesse feito essas coisas, descarregava todo aquele peso que eu sentia, resolvia coisas no meu imaginário que até então eu não sabia como fazer.
E essa, eu diria, foi a maior contribuição dela na minha vida, conseguir colocar melodia nas coisas que eu não conseguia, ficou mais fácil de entender, ela colocou legenda nas coisas que eu não conseguia explicar.E ela é tão importante que eu nem perdi o respeito por ela quando ela apareceeu na Malhação em 96…
Em 97 saiu o filme “Cidade dos Anjos” e sempre que a gente pensa nesse filme, Iris do Goo Goo Dolls é o que vem à cabeça. A trilha sonora inteira é fantástica mas Uninvited… Desde a primeira vez que eu ouvi essa música e até hoje, é intensa pra mim. Desde a melodia, até os arranjos de cordas… os altos e baixos da música, tudo. Eu encontrei um site… www.songmeanings.net onde as pessoas postam uma letra e vira um forum, onde as pessoas comentam o que acham que a letra significa e um cara comentou algo super interessante. Ele diz que a música tem três estágios, o primeiro ela diz que se sente lisojeanda com o interesse do cara, mas que agora ela não pode lidar com isso, no segundo estágio ela fala sobre como essa pessoa tá pressionando e fazendo ela se sentir quase desconfortável e que parece que ele gosta disso mas que ela simplesmente não quer, não está interessada. No terceiro e último estágio então, ela fica mais agressiva e mais objetiva, dizendo que essa pessoa acha que está apaixonada mas na verdade não está. Que essa pessoa pensa que já sentiu amor como o amor que ela sente antes e que isso tem que parar, que isso não é permitido e que não foi convidado. E aí, no fim, ela meio que cede e diz que ela não pensa que essa pessoa não digna do amor dela, mas que ela precisa de tempo pra pensar pra se deixar tentar (por medo de se envolver) – Eu achei uma interpretação genial. Eu acho, sem dúvida, uma das melhores letras de música que eu já vi. É relativamente curta, mas diz tanto…
Em 1998 minha mãe veio pra NYC com uma amiga e, como eu sabia que a Alanis tava pra lançae o Supposed Former infatuation junkie (que me levou uns bons anos pra eu entender o que significava), eu emplorei pra minha mãe procurar e me trazer. A gente ainda tava naquele tempo em que o Brasil não era incluído no lançamento mundial das coisas. Eu lembro que a primeira coisa que eu fiz, antes mesmo de abraçar ela e dizer “ah que saudade! que bom que vc voltou! como foi de viagem??”, eu disse: “achou o cd???”
Eu tive que mandar uma folha junto com ela. Com o nome do CD por escrito (po, naquele tempo nem eu
conseguia pronunciar o nome direito) e tudo, pra ela não comprar errado e coisas assim…Nossa, quando eu descobri que ela não trouxe eu revelei meu lado materialista… quase entrei em depressão mas, assim que ela viu o CD ela comprou e me deu, assim, do nada.
A primeira vez que eu vi o clip de “Thank U“ e ouvi a letra.. eu fiquei meio perdida, eu não sabia o que tinha acontecido, a gente não falava mais a mesma língua. Ela falava de histórias que eu não conseguia entender e agradecia por coisas que só aconteceram com ela. Quem afinal era Baba??? Ela nunca me disse, e eu fiquei frustrada. Era muita informação pra mim em cada música, parecia que ela queria colocar 5 faixas em uma. Que ela simplesmente tinha coisas demais pra dizer. Mas com o tempo eu consegui entender ela de novo. Uninvited me acompanhava desde então, experiências passadas moldam a nossa recepção de situações similares no futuro. A apresentação dela ao vivo num dos Emmys, em que ela cantou Uninvited com uma orquestra atrás dela fica na minha cabeça até hoje, tenho a versão em MP3 e achei o video no youtube, ainda hoje eu assisto e é forte pra mim. Desde a expressão facial dela até a orquestra… tudo.
Mais ou menos nesse ano, 98 até 2001 por aí, foi onde muita coisa aconteceu, uma fase mais que definitiva do meu futuro. Quando eu me sentia sozinha e gostava, ouvia “Front Row”, mesmo sabendo que era sobre um assunto não tão relacionado com o que eu sentia naquele momento, me fazia sentir como se eu só estivesse assistindo ao mundo passar, só observando “I’m in the front row, the front row with popcorn… I get to see you, see you, close up…” Sempre que eu precisava de um apoio moral, eu gostava de pensar que “UR” na verdade falava sobre mim e que “So Pure” não tinha absolutamente nada a ver com NYC, mas com coisinhas especiais que cada pessoa têm, só precisava de um cenário.
Em 99 as coisas começaram a andar muito bem, a trilha sonora de “Dogma” saiu e junto com ela, “Still“, que a Alanis escreveu especialmente pro filme e que fazia sentido quando você lembra que ela interpretou Deus no filme. Eu amava ouvir a música no modo repeat do discman e entender a letra, que era grandiosa demais mas que basicamente falava sobre compreender as ações, ter compaixão e acima de tudo, ter a capacidade de perdoar e como era possível perdoar, sempre.
Nesse ano o acústico dela saiu também. Outro CD que eu ouvi quase até furar. Ainda tenho ele mas tá tão arranhado que nem presta mais pra nada. Eu lembro de caminhar até o costão da praia, sentar nas pedras lá e ficar o dia todo. A maior parte das músicas eu intercalava, entre estúdio e acústico. Duas músicas, no entanto, que só tinham nesse CD, também entraram na minha trilha sonora. O cover de “King of Pain” do The Police e “No pressure over capuccino” A primeira parecia que tinha muito a dizer sobre ela e parecia falar de que acontecem mil coisas ao nosso redor e que a gente sempre se encontra em lugares onde a gente já esteve antes, mas sempre é diferente. Já a segunda me fazia pensar muito nessa coisa de como é horrível quando as pessoas não dão bola pra você, quando não só são incapazes de te incentivar como ainda te colocam pra baixo, fazendo você perder a fé em você mesmo. Uma questão pessoal complicada…
Mas em 2000 desandaram… aquela coisa toda, perder amigos próximos, terminar o primeiro namoro, tudo foi muito pesado e no final ainda, reprovei na escola… e aí o cd mais uma vez virou trilha sonora. Especialmente “Can’t not“, “I was Hoping“, “One” que estavam mais relacionadas mesmo à terminar amizades, aos mau-entedidos que resultaram disso, de ter que ir pra escola todos os dias e sempre sentir como se eu estivesse a ponto de desmoronar, que a imagem que eu passava era mesmo um castelo de cartas, se qualquer um aparecesse e soprasse do jeito certo, eu desabava. Eu andava chata e carente e covarde e repetitiva… E aí eu ouvia “That I would be Good” porque eu me sentia um lixo e não entendia bem o que tinha acontecido com a minha vida em questão de poucos meses, eu tinha tudo e depois não tinha nada.
Acima de tudo, foi a primeira vez que eu gostei muito de alguém e relutantemente eu aprendi a acreditar em coisas, em planejar e fazer investimentos emocionais, o que sempre foi uma dificuldade e claro, quando a gente é adolescente tudo é intenso e importante (dependendo do tipo de adolescente que você foi, lógico). Eu precisava entender o que eu tinha feito pra afastar as pessoas que eu gostava, na verdade, hoje eu penso assim, no que eu fiz. Antes era sempre “por que fizeram isso comigo? Por que ó Deus, eu me pergunto” e “Are You Still Mad” é definitivamente a trilha sonora da minha fase de vingança, da minha fase stalker, de querer consertar algo que já não tinha mais concerto, acho que o desespero faz a gente achar que ficar por perto e fazer tentativas e pressionar e se vitimizar vai ajudar.
Essa mesma música também foi grande pra mim no futuro, bem mais frente, nas minhas crises do último namoro. Mas era diferente, também me fazia sentir raiva, como se eu estivesse esfregrando algo na cara dele, reação de frustração e falta de atenção, sabe? Essa música veio e voltou muitas vezes ao longo dos anos.. “Are you still mad I kicked you out of bed?/Are you still mad I gave you ultimatums?/Are you still mad I compared you to all my forty year old male friends?/Are you still mad I shared our problems
with everybody?/Are you still mad I had an emotional affair?/Are you still mad I tried to mold you into
who I wanted you to be?/Are you still mad I didn’t trust your intentions? of course you are, of course you are/ Are you still mad that I flirted wildly?/ Are you still mad I had a tendency to mother you?/Are you still mad that I had one foot out of the door?/Are you still mad that we slept together even after
we had ended it?/of course you are, of course you are./Are you still mad I wore the pants most of the time?/Are you still mad that I seemed to focus/ Only on your potential?/ Are you still mad that I threw in the towel?/ Are you still mad that I gave up long before you did?/ of course you are, of course you are.
Mais uma vez, não era só eu que tinha passado por isso, eu nunca soube, afinal, se na música ela está se desculpando, ou se lamentando, ou preocupada se ele sentiu essas coisas que ela fez, se ela quer consertar e voltar…
Mas, voltando no começo da história…Quando eu finalmente estava entrando num processo de cura, digamos assim, que eu estava devagarinho retomando as rédeas da minha vida, Uninvited virou o centro de novo. Foi mais uma daquelas situações em que parecia que aquela música era sobre mim, mas de um jeito diferente. Uninvited no sentido de tal pessoa ter sido desconvidada, de não ser mais bem vinda e de que eu não a achava ruim, mas que eu precisava de tempo pra conseguir aceita-la de volta na minha vida. Eu entendia exatamente o que ela dizia com: “Must be strangely exciting to watch the stoic squirm“ e eu ficava com muito ódio quando eu ouvia ela dizer “You speak of my love like you have experienced love like mine before” Eu não consigo lembrar de nenhuma outra música que me fizesse sentir coisas intensamente como raiva e cansaço emocional, um esgotamento por estar lutando contra algo que eu não entendia.
Quando eu reparei na intensidade, eu ouvia essa música. Finalmente, “Unsent” me fez começar a pensar que essas coisas de terminar aconteciam mesmo e, se as outras pessoas sobreviveram e seguiram em frente (mesmo eu não entendo como isso era possível) mas, cada vez que ela falava de um outro ex-namorado eu lembrava que eu tive outros namorinhos que tinham feito diferença, no começo eu não conseguia aceitar mas, quando eu ouvia ela cantar: “Dear Jonathan, I liked you too much, I used to be attracted to boys who would lie to me (…)” e eu lembrava de algumas situações meio desagradáveis dos tempos de colégio…
“Dear Lou, we learned so much, I realize we won’t be able to talk for some time and I understand that, as do you(…)” eu lembrava de alguém (com quem eu ainda não posso falar, na verdade) e “The long distance thing was the hardest and we did as well as we could, we were together during a very tumultuous time in our lives(…)” Era complicado pra mim admitir que a gente fez o melhor que pode mesmo e que era um momento muito complicado mesmo. No final, cada uma dessas pessoas que passaram pela vida dela, passaram pela minha também. Eu fiquei triste porque eu percebi que isso era comum, que não era mais tão sofrido e especial assim mas, essa mesma razão me fez sentir tão menos sozinha e tão mais melhor.
