Não quero nada não, tô só dando uma olhadinha…

Maio 25, 2009

(re) Pamonhalizar.

Arquivado em: Uncategorized — Caroline @ 2:52 pm

Um dia desses ouvi uma metáfora genial sobre uma característica bem comum que a maioria das pessoas (adultos) têm observado sobre as crianças: elas não sabem dar valor ao que têm. Essa metáfora faz parte de mais um montão de “provocações filosóficas” cunhadas pelo professor e filósofo Mario Sérgio Cortella. Eu não vou me extender muito e colar o texto todo mas, basicamente ele diz que “estamos vivendo uma “despamonhalização” da vida em família”, ou seja, não fazemos mais pamonhas, não fazemos mais as coisas juntos.

O ato de fazer pamonhas é meramente ilustrativo. É sobre mais que isso, é sobre passar tempo em família, fazendo coisas em família e experimentando cada passo da experiência. No caso da pamonha, seria mais ou menos assim: A família toda acorda pelas quatro da manhã para colher o milho. Enquanto os homens trazem o milho, as mulheres o descascam. Mais tarde, o os grãos são tirados da paçoca e, enquanto os homens amassam o milho no pilão, as mulheres já preparam as cascas verdes e a água para o cozimento daquela farinha amassada… Esse processo todo provavelmente levava o dia todo quase, deixando a pamonha bonitinha pra comer lá pelas quatro da tarde. Mas não havia pressa.

Sim, todo mundo tem fome e tem vontade de comer, mas se você entende que tudo tem um processo e um preço (não só em termos de dinheiro), fome e vontade de comer tem um outro significado, eles são acompanhados de compreensão, de que é preciso esperar esfriar.

Do meu ponto de vista, eu não vejo só como “aprender coisas em família”, ou só o “trabalho em equipe”, mas duas coisas:
- O processo: O que mais pode incomodar é não saber o que vem depois, quanto tempo até tal coisa ficar pronta ou até chegarmos à algum lugar. Tudo bem ter dúvidas mas, não tão bem se não houver alguém disposto `a dar respostas. E hoje é assim, todo mundo pensa que não tem tempo pra nada, que tudo é pra ontem. Meu vô dizia que, pra mandar fazer, é preciso saber fazer. É verdade mas, alguma coisa acontece que a prepotência e as justificativas absurdas e infindáveis viraram moda e se espalham como uma praga. Digo, é mais fácil hoje você encontrar alguém tentando justificar a merda que fez do que simplesmente dizer: “Fui eu, reconheço. Vou melhorar da próxima vez” E melhor, mais raro ainda é encontrar alguém que diga isso com total confiança e paz de espírito e querendo MESMO acertar e aprender mais para a próxima vez.

- O Valor: Eu admito meu medo irracional de ter filhos. Admito que eu tenho medo ainda de perder deles e acabar cedendo à vontades absurdas e caprichos intensos de curta duração, ou de passar por um clássico episódio de temper tantrum no supermercado. Eu espero que não dê mesmo pra comparar as crianças americanas com as brasileiras mas, a noção de valor das coisas é inexistente nas primeiras. Digo, elas sabem o valor em dólares do tênis ou do celular, mas não sabem quantas horas de escritório ou de mijada de chefe ou de incômodo isso custou. Tudo bem, acho que um monte de crianças aqui estão na mesma média. Eu acredito ainda em preceitos básicos do Behaviorismo. Punição e Reforçamento (tanto positivo quanto negativo). Eu acredito em cortar a grama pra ganhar a mesada, ou lavar a louça e coisas assim. Acredito que, passar um dia todo fazendo pamonha vai te fazer gostar da pamonha e não cuspir metade no chão porque tem gosto ruim.

Eu fiquei pensando no efeito da despamonhalização em mim. Eu tive castigo e tapa na bunda e eu tive minha parte em tarefas domésticas que eu detestava pra ganhar mesada, ainda bem que eu pude ganhar mesada. Mas reparei, esses dias, que talvez não foi o suficiente. Eu já entendo o valor, mas não bem o processo. Eu devo parecer uma idiota fazendo perguntas bobas sobre capital de giro, imposto de renda e investimentos. Eu preciso ler que a Penélope Cruz fica com medo que os diretores vão demiti-la dos filmes porque ela se sente insegura pra perceber (e ficar surpresa) que tem mais gente assim no mundo do que eu pensava.

1 Comentário »

  1. Quando eu não sei exatamente o que falar eu respondo sobre um assunto que realmente me bota medo, eu digo: “a coisa está grande e não sabemos ao certo o que devemos fazer”.
    Nessas horas sempre lembro do Don Quixote pirando com os rodamoinhos. Sou do grupo quixote, que se pega com questões “banais” da vida adulta, do mercado financeiro, da bolsa de valores, de como ganhar dinheiro, se o que estou fazendo ou o que quero fazer será politicamente correto ou impoliticamente aceito, se as taxas de juros blá, blá, blá, blá…
    Me pergunto como meus pais conseguiram fazer tudo isso? Se eles conseguiram, certamente vou conseguir também… mas a sensação de não conseguir é maior. Pois sou do tempo em que pamonha se compra no mercado!
    Nem pilão eu tenho, quem dirá paciência para chegar até as quatro da tarde!

    Comentário por vinicius — Maio 25, 2009 @ 3:22 pm


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